Cinema de terror e jogos de terror

Estava a escrever uma análise sobre Obscure 2, que brevemente publicarei neste espaço, quando cheguei à conclusão de que os videojogos de terror estão longe de reproduzir situações elementares do género. Obscure 2, um dos últimos lançamentos, é considerado como seguidor da linha dos filmes de terror adolescente, carregados de clichés. Fui pensando nesses lugares-comuns e constatei que se nos filmes já se tornaram mais que maçadores e básicos, talvez nos videojogos se revelassem uma mais valia para a experiência que promovem. Situações que nunca vimos transpostas nos videojogos e, a sua transposição, poderia provocar interesse no jogador que procura este tipo de abordagem. Ao ver as novas imagens de Silent Hill 5, deparei-me, para variar, com uma mão cheia de monstros. A ideia de voltar a combater monstros, que surgem com a realidade alternativa tão bem trabalhada em Silent Hill, deixou de ter qualquer piada para mim. E isto porquê?
Porque tal como nos filmes os clichés presentes nos videojogos deixaram de ter qualquer interesse.
Alguns produtores esquecem-se que os videojogos de terror não são nenhuma competição de matar mais monstros por cada metro quadrado. Essa não é a essência do terror. Entrar numa sala igual à anterior, mas com um carrinho de bebé desabitado no meio dela, como vimos em SH2, é mais assustador e desgastante do que entrar numa sala e ter que aniquilar meia dúzia de monstros…
Era preciso ter a ousadia de abandonar a infantilidade dos monstros e oferecer um enredo que evocasse o carácter da personagem principal. Uma das situações mais assustadoras, joguei-a em Project Zero 3 quando comandava Kei (desequipado de qualquer arma à la Rambo) e tinha que me esconder de um espírito desesperado que vagueava a sala onde estava. Depois há os sustos de nos fazer levantar da cadeira. Apanhei alguns sustos valentes neste jogo, mas nenhum como o dos cães a partir as janelas em Resident Evil 1. Estas foram situações, a meu ver, muito bem conseguídas.
Mas falava eu de Obscure 2, se realmente queriam promover a experiência de “filme de terror videojogável”, porque não nos deixaram na pele de uma personagem assombrada por um assassino à solta e começarmos a colocar os nossos amigos como principais suspeitos de poder ser o assassino?
Seria interessante ver a cadeia de acontecimentos, o jogador a criar as suas suspeitas e a reacção dos nossos amigos às suspeitas.
No fundo, era trazer algo de novo, inspirado pelas películas cinematográficas, a este mundo e dar-lhe a necessária profundidade. Se calhar era pedir demais…
Vozes defensoras deste lúdico, dizem-me que cada vez é mais estreita a ligação entre o cinema e os videojogos, eu apenas concordo parcialmente (essas mesmas vozes dizem que a história de um serial killer é básica, mas a dos jogos de terror, tirando honrosas excepções, é ainda mais básica). Ainda não vi, como amante de filmes de terror, uma experiência videojogável capaz de transpor o suspense e ambiente de tensão que um filme de terror proporciona numa questão de segundos(!). Vemos Silent Hill a explorar o terror psicológico que se destaca mais pelo que não mostra do que era suposto mostrar, Project Zero a pisar os ambientes de terror nipónicos, mas a sensação final é de que, ainda não chega. Voltando a SH5 preocupa-me ver a nova colecção de monstros. Está-se mesmo a ver que vamos explorar o mesmo caminho dos antecessores. Isto sim é cansativo e não produz qualquer capacidade de surpreender verdadeiramente o jogador. E nem vou falar muito do badalado novo sistema de combate. Existe por aí muita gente a esfregar as mãos de satisfação com a possibilidade de SH ter grandes combates com monstros (Resident Evil 4 é um grande jogo de…acção). Eu ficava mais contente por ver a série entrar noutro tipo de ambientes e história. Visto que esta promete ser a cópia da cópia. A personagem que se dirige à velhinha Silent Hill para encontrar algum parente, amigo, companheira…
Mas para os que se perguntam “porquê o novo Obscure?”. Primeiro, porque gostei do primeiro, era limitado mas foi uma das últimas experiências que me deu esperanças de ver os jogos a aproximarem-se mais dos filmes (afinal não é isso que os produtores procuram?). Depois de uma introdução bem à filme holywoodiano e de um início arrebatador, Obscure parecia ter tudo para colmatar esta parca aproximação de filme terror – videojogo terror. Acontece que o resto da aventura não foi tão brilhante como se esperava e Obscure tornou-se mais uma experiência inspirada no filme “The Faculty” com clara alusão a Resident Evil Outbreak sem conseguir bater forças com os supra-sumos do género, nem inovar por não ter um rumo vincado e distinto.
Vou acreditar que a evolução do hardware das consolas não signifique apenas a melhoria gráfica dos seus produtos. Sei que ajuda, mas o jogador não pode ter uma visão tão redutora. Espero, sim, pela criação de experiências inovadoras e verosímeis.
P.S. -» E que fique claro que isto não foi nenhuma crítica direccionada ao jogo da Hydravision, expus uma situação que é geral, a falta de profundidade e intimidade com o jogador devido à superficialidade e comodidade do produto apresentado…

adoro jogos de terror